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domingo, 6 de setembro de 2009

A Arte, ou a forma especial que o artista tem de abrir nozes.

Copiado do meu ex blog “arco-íris-perdido”


2008/01/17/

Finalmente agarrei "Josefina, a cantora ou o povo dos ratos", de Kafka, para o ler e compreender. Compreendo sim e com todo o gosto, tanto que resolvi por estes dias dizer que este é o meu escritor preferido. Amanhã não sei, o amanhã pode trazer ainda melhores novidades.

Kafka, reflecte neste livro sobre as complicadas ligações entre a arte e o artista , e a relação destes com o "povo".

Neste caso, a arte é canto ou assobio não interessa, é algo que o povo também sabe fazer , e faz naturalmente no dia a dia. Mas o assobio do povo não impressiona multidões como o assobio de Josefina, porquê ? Porque ela é artista. A arte é aquilo que o artista faz.

Não há arte sem artista. O artista dá à arte, o factor humano ( fragilidade, solenidade,..) e assim dá originalidade, o factor humano único. Na arte tem que se sentir, ver a fragilidade humana, ou então não estamos perante arte. Ao expor-se na sua arte , Josefina, a artista, neste caso cantora, fica despojada , entrega-se de tal forma que, quando canta até um " simples sopro fresco que passasse fosse suficiente para a matar", escreve Kafka a páginas tantas.

A voz de Josefina, é a ideal para o povo ouvir quando está em alturas em que tem de tomar decisões difíceis e neste conto, esse canto nesse contexto, é comparado à " existência miserável do povo no meio do tumulto do mundo inimigo", .../..."um verdadeiro artista do canto seria insuportável nestas alturas", acrescenta o autor. Creio que se refere ao facto de um comum artista, um habilidoso normal, de nada serviria em momentos cruciais , em que o povo se tem de inspirar para renovar as suas energias.

Mas Josefina vai envelhecendo e desaparecendo aos poucos ...mas como " poderão os nossos ajuntamentos ( do povo) acontecer em pleno silêncio? E no entanto não eram eles com a Josefina igualmente silenciosos" ..."Era o seu assobio mais alto e vivo do que a recordação dele será?

Mesmo no seu tempo, não passaria o assobio de uma mera recordação? não terá o povo, com a sua sabedoria, colocado o canto da Josefina em tão alto pedestal porque assim jamais o poderia perder?"

Kafka fala-nos neste livro , de uma forma absolutamente genial, da arte - ela existe porque o povo a descobriu no seu seio, sente-a, reconhece-a, assim decide fascinar-se com o artista, dentro da sua obra.

Margarida, Kafkiana , absolutamente...

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